quinta-feira, abril 21, 2005

13 anos de cadeia, 30 milhões de meticais

Não tenho tido a oportunidade de aqui parar. Razões muitas, mas o principal será o tempo. Aquele factor que não volta a trás e que não conseguimos negociar mais por dia.

Antes de entrar no tema, quero agradecer a saudosa exigência da Pituxa e da Mada, por andarem com saudades minhas. Mas acima de tudo eu delas.

Ao tema e porque merece o testemunho.

Há cerca de 8 anos atrás, um cidadão foi literalmente “passado a ferro” na estrada por dois outros cidadãos mais jovens, provavelmente fumados. Os dois miudos atropelaram o ser já a caminho dos seus cinquenta, e depois disso andaram para a frente e para trás, a espezinhar num claro momento de ódio puro. De propósito não falarei nas raças das pessoas envolvidas, mas tão só no ato bárbaro vivido. Ao que consta, o mais velho teria saido do carro para pedir aos miudos para sairem do meio da estrada, esse foi o resultado.

Na nossa vizinha África do Sul é sabido que “chapas” (taxis) andam armados e que de vez em quando acontece uma morte apenas por se ter dado com os máximos, em advertência. Mas aqui em Maputo, não é comum sabermos de acontecimentos destes. Desde que não se fale, nas mortes que todos os dias acontecem nos bairros mais pobres. Aliás é o que acontece. Infelizmente existem sim e muitas.

Este atropelo, que deixou o cidadão mesmo empenado mas não morto, na altura foi para os tribunais e na altura os miudos foram buscar um dos maiores advogados desta praça para os defender. Não entendo bem, o que iria o tal de advogado defender.

“Coitadinhos dos rapazes, não sabiam o que faziam”
“Vamos provar demência, coitados”
“São jovens, inconscientes”

O atropelado teve sorte, força muita provavelmente e sobreviveu e não sem mazelas fisicas para o resto da vida dele. Disso estou certa, por conhecer na pele esses embates automobilísticos.

Oito anos passaram e há dias vejo nas primeiras páginas dos jornais a manchete “13 anos de cadeia e 30 milhões de meticais”. Retive a respiração. Foi a primeira vez que vi o resultado “justo” (entre aspas porque talvez eu pessoalmente não tenha achado que tenha sido suficientemente duro, penalizante), de um acontecimento macabro, barbaro e feito por putos que na sua maioria, abastados e sempre, sempre sairam impunes a estas legalidades.

Os 13 anos de cadeia, ainda que suspeitos porque temos um clássico invasor da cadeia de maior segurança, os 30 milhões de meticais. Puff, nada representam e não deve pagar um dia operativo do atropelado.

Mas, e é aqui que satisfaz. Foram acusados de homicídio voluntário, e foram condenados. Esse passo meus caros leitores é igual aquele do Armstrong quando pisou na lua pela primeira vez. Triste será saber que os miudos, hoje jovens adultos já devem andar por aí em Portugal numa qualquer loja de cabedal ou mobílias dos pais ou dos tios e não irão decerto para à cadeia, mas caso pisem este território com jeitinho, muito jeitonho ainda vejo um dia destes:

“Foram presos, depois de 20 anos fora de Moçambique. Irão cumprir com a pena”






4 comentários:

Pitucha disse...

Cheguei a pensar que te tinhas retirado de vez! Fico contente por ver que me enganei.
:-)

Passada disse...

Olá Pituxa, sou meio dura de roer!!! :)

Madalena disse...

É muito revoltante o que tu contas, não é mmicr! São coisas assim que me abrandam o desejo de voltar aí, mesmo de férias.
Beijinho graaaaaaaaaaaaaaande!

Passada disse...

Oi Mada, bom dia. Hoje está particularmente um dia bonito, calmo. Quanto ao post, há bem piores. Nós só não contamos porque não parecem credíveis. Mas não implicam que eu não queira aqui estar, antes pelo contrário. Vive-se história neste momento e a todos os níveis.