quinta-feira, março 02, 2006
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quarta-feira, março 01, 2006
Não se sabe do vizinho
Há coisa de dois meses atrás, entrou aqui para o nosso lado um vizinho, sozinho, macho, nos seus 40 e picos, muito Inglês, ar trapalhão, que deixa a porta para “let a cool breeze in...”, mochila às costas e um bigode muito luso mas loiro.
Descansem o vizinho não morreu. Mas aconteceu na noite do sismo. E porque abanámos na séria, ao fim de uns 10 minutos eu ouvia a porta do vizinho abrir, fechar, abrir, fechar. Fui, claro como manda a regra da boa vizinhança, ver e saber do vizinho. Encontro um homem profundamente transtornado com o abalo, parecia mais uma barata tonta que andava aos círculos que nem o Tio Patinhas, gastava sola, mas não ía a lado nenhum.
Perguntei se estava tudo bem ao rapaz, se precisava de alguma coisa. Retorquiu que não. A minha cadela muito prenha entrou logo casa do vizinho adentro (porque havia ali antes um garfield pacholas e que a adorava) e o vizinho, tonto que parecia ter bebido totonto, não se acalmava.
Aí decidi acabar com o sofrimento do rapaz.
Passada - “Have you got a place to go to?”
Vizinho – “No but I am gone anyway!”
Pés pesados, um arrastar da vista à procura duma saída gloriosa, pegou numa mochila, agarrou na Zaka e colocou-a sem olhar para ela, à porta e o vizinho foi-se.
Foi-se até hoje. Não sei do Englishman. Nunca mais vi o vizinho. O apartamento continua aqui, mas o seu ocupante nicles.
Descansem o vizinho não morreu. Mas aconteceu na noite do sismo. E porque abanámos na séria, ao fim de uns 10 minutos eu ouvia a porta do vizinho abrir, fechar, abrir, fechar. Fui, claro como manda a regra da boa vizinhança, ver e saber do vizinho. Encontro um homem profundamente transtornado com o abalo, parecia mais uma barata tonta que andava aos círculos que nem o Tio Patinhas, gastava sola, mas não ía a lado nenhum.
Perguntei se estava tudo bem ao rapaz, se precisava de alguma coisa. Retorquiu que não. A minha cadela muito prenha entrou logo casa do vizinho adentro (porque havia ali antes um garfield pacholas e que a adorava) e o vizinho, tonto que parecia ter bebido totonto, não se acalmava.
Aí decidi acabar com o sofrimento do rapaz.
Passada - “Have you got a place to go to?”
Vizinho – “No but I am gone anyway!”
Pés pesados, um arrastar da vista à procura duma saída gloriosa, pegou numa mochila, agarrou na Zaka e colocou-a sem olhar para ela, à porta e o vizinho foi-se.
Foi-se até hoje. Não sei do Englishman. Nunca mais vi o vizinho. O apartamento continua aqui, mas o seu ocupante nicles.
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quarta-feira, março 01, 2006
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segunda-feira, fevereiro 27, 2006
Ser criança
Lá vou eu, ainda de lá saí. Mas não me lembro muito bem como é que se faz isso. Ser criança. Heeeeeeelllllppp!
A madrinha da minha rapariga mandou-me música clássica para bébés e reparo que estou de facto muitíssimo longe. Será que fui criança? O violino arrepia-me e transporta-me para uma dimensão que me escapa, que me parece que não tive. Não me lembro. Canções de embalar, canções de felicidade, vida e esperança. Ai....
Deu-me uma de (chamam-lhe) nidição, a mim parece-me mais uma de: nasce um ser para a semana que vem e faltam ainda algumas coisitas. Haja mama, carinho, boa disposição e .... muitas fraldas.
Não me lembro do “João ratão nem do twinkle twinkle little star” e muito menos da primeira classe, ou segunda ou quarta. Vou ter de voltar à escola (isso excita convenhamos, dá-me algum sentido de renovação), re-criar novos hábitos, dar espaço e acima de tudo “encaixar” – que nem a cabeça dela neste momento – uma nova vida e com tudo o que vem com essa mudança. Ah, mas a mudança não me assusta. Assusta-me mais este mundo que tenho para lhe oferecer, onde ao fim de uma catrafada de anos a mostrar-lhe que “isto” é porreiro para depois vir a descobrir, que não é bem assim.
Mas há magia sim e fantasia e o bem. E as estórias lindas de morrer para contar, e o céu a música, a natureza e a água, o sonho e o sonhar, o animal e o ser animal.
A madrinha da minha rapariga mandou-me música clássica para bébés e reparo que estou de facto muitíssimo longe. Será que fui criança? O violino arrepia-me e transporta-me para uma dimensão que me escapa, que me parece que não tive. Não me lembro. Canções de embalar, canções de felicidade, vida e esperança. Ai....
Deu-me uma de (chamam-lhe) nidição, a mim parece-me mais uma de: nasce um ser para a semana que vem e faltam ainda algumas coisitas. Haja mama, carinho, boa disposição e .... muitas fraldas.
Não me lembro do “João ratão nem do twinkle twinkle little star” e muito menos da primeira classe, ou segunda ou quarta. Vou ter de voltar à escola (isso excita convenhamos, dá-me algum sentido de renovação), re-criar novos hábitos, dar espaço e acima de tudo “encaixar” – que nem a cabeça dela neste momento – uma nova vida e com tudo o que vem com essa mudança. Ah, mas a mudança não me assusta. Assusta-me mais este mundo que tenho para lhe oferecer, onde ao fim de uma catrafada de anos a mostrar-lhe que “isto” é porreiro para depois vir a descobrir, que não é bem assim.
Mas há magia sim e fantasia e o bem. E as estórias lindas de morrer para contar, e o céu a música, a natureza e a água, o sonho e o sonhar, o animal e o ser animal.
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segunda-feira, fevereiro 27, 2006
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sexta-feira, fevereiro 24, 2006
Rescaldo do abalo
Não conheçço outra terra onde se tivesse vivido um abalo de 7.5 e haver tão poucas baixas: 2 mortos e 28 feridos. É no mínimo um fenómeno. A razão deve-se ao subdesenvolvimento. Não conheço outro terramoto que tivesse sido anunciado e que provocasse tão poucas baixas.
Nem tudo foi mau, além dos que sentiram na pele o terror nas alturas, verificaram-se na horas seguintes acontecimentos giros:
1. Maioria das pessoas com quem falei e que sentiram o abalo no r/c, pensaram que estavam a ser assaltados só tendo percebido que era um cismo quando viram as suas piscinas com mini tsunamis;
Nem tudo foi mau, além dos que sentiram na pele o terror nas alturas, verificaram-se na horas seguintes acontecimentos giros:
1. Maioria das pessoas com quem falei e que sentiram o abalo no r/c, pensaram que estavam a ser assaltados só tendo percebido que era um cismo quando viram as suas piscinas com mini tsunamis;
2. Maioria das pessoas com quem falei e que sentiram o abalo nas alturas pensaram que era o marido/mulher aos pinotes na cama;
3. A minha empregada mais nova pensou que eram ratos a empurrar a cama, muitos ratos;
os que não sentiram levaram algum tempo a acreditar e os que se encontravam longe gozaram;
os que não sentiram levaram algum tempo a acreditar e os que se encontravam longe gozaram;
4. O meu prédio tem há uns meses postos uns andaimes desde o r/c até ao 25º - nem um mecheu, mas no prédio em si foram abertas rachas e uma varanda caiu. Parabéns à Teixeira Duarte porque sabe colocar andaimes;
5. O Inst. nac. De Meteorologia dormia.....todo, não havia viva-alma para nos prestar algum conforto, informação;
6. Eu enviei por engano um sms que foi parar a um estranho e recebo como resposta a seguinte mensagem: “Depois da noite que passamos, com esse sono todo, falhar o número é muito normal. Como te chamas? Em que cidade estás? Tá tudo bem comvosco? Eu me chamo Vali Maputo. (delicioso......)
7. Os Americanos lançaram um maior panico do que os próprios Moçambicanos;
8. Foram vistos nos relatos feitos com sentido de humor – fenomenal
9. Descobrimos que pode acontecer em Moçambique um terramoto desta magnitude;
10. Nada funcionou no momento do abalo, principalmente os celulares, e devem ter tido na certa o maior volume de utilização, já que estava tudo vivo.
11. Logo após o abalo a Rádio de Moçambique tocava "Nora Jones".
Para terminar, a conclusão a que chegamos, mais pertinente é a de que não estamos minimamente preparados para uma calamidade. E muito mais preparados para os assaltos.
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sexta-feira, fevereiro 24, 2006
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quinta-feira, fevereiro 23, 2006
Terramoto em Maputo
Fomos acordados às 24h40 por um terramoto, num 16º andar. O terror não podia ter sido maior já que a minha cria ainda não nasceu, estamos num 16º andar, e quando um monstro destes de 25 andares baloiça como se de seda estivessemos a falar, o sangue não aquece, congela.
A cama oscilava da esquerda para a direita, qual onda de mar e que nos fez sentar bem direitinhos na cama:
Meu rapaz “o que é isto”
Eu”não acredito, estamos a viver um terramoto, em Maputo isto não acontece”
Meu rapaz “acordamos os filhos?”
Eu “...........”
Saltamos da cama com alguma esperança de que estivessemos a vivar um pesadelo, que fosse uma impressão, um enganos. Mas não era. O efeito, infelizmente manteve-se, e aí sim sentimos que a cama além de continuar a passear, o prédio todo estava literalmente a abanar.
Apodera-se o medo pelas duas crianças que dormiam serenamente e nem sentiram, apodera-se a insegurança de não sabermos se vamos sair ilesos, e assola-nos a impotência de nada poder fazer até que pare.
Não durou mais do 2 ou 3 minutos, mas resultaram num extremo longo percurso de redefinição de toda a vida. O que é que importa neste momento?
O abanão parou, a vertigem (literal) ficou e veio a tomada de decisão, já que sabemos da existência de réplicas. Sucedem-se uma série de acções normais. Ligar para o Inst. De Meteorologia e não haver uma alma penada para que nos fosse dada alguma (zinha), os celulares cessaram a sua activade por “overload”, ligar a TV para ver a CNN, e esta foi de facto a primeira a anunciar o sucedido.
A terra tremeu a 530kms de Maputo com uma magnitude 7.5
Saber na cidade quem sentiu, quem não sentiu. Sabemos das pessoas da embaixada de portugal todas no r/c de pijama incrédulos. Aliás como todos. Descobrimo que a Av. Kenethe Kaunda nada sentiu, ligamos para um amigo que lá mora e toca de exportar crinaças, cadela muito prenha (esta foi dormir com o marido, muito contrariada mas como está prestes a parir,achei melhor deixar-lhe com a sogra!!!), um saquinho com escovas de dentes, máquina fotográfica e...documentos. Se eu morrer, alguém que descubra quem fui.....
Muito difícil acordar dois miudos um de 10 outra de 11, com uma explicação mínima para que o sono não fosse abalado, que tínhamos que sair porque houve um terramoto. Já eram 01h30am. Levamos os dois carros, e lá fomos instalar numa casa, r/c para não haver mais sustos pelo menos nas alturas. Apesar de me ter passado pela cabeça uma tsunamizita.
Ali o casal, nada tinha sentido. Maputo está com assunto e só voltamos a ver uma almofada às 04h00am. Para acordar às 06h00am e levar a miudagem para a escola. Manter a todo custo alguma rotina e normalidade para que não se extrapole a situação.
Mas nada, mesmo todas as intenções de “normal” retiraram o verdadeiro sentir, do viver um terramoto. Essa é a verdade.
A minha filha está a semana e meia de nascer, já viveu na pele o verdadeiro medo, e eu vivi na alma a verdadeira possibilidade de ir desta para melhor, com tanto ainda por fazer.
A cidade de Maputo, encheu-se de pessoas incrédulas. Foi tudo para a rua, sem informação e muitas sem saberem o que se tinha passado. Nunca vi tanta gente de madrugada cá fora. Temperaturas muito quentes, nem uma brisa que desse sopro de vida a quem acabou de passar pelo medo da morte.
Estamos bem, mais atentos, alertas e definitivamente mais conscientes da nossa insignificante vida nesta natureza. De facto é preciso viver para crer.
Agora vou tentar dormir na mesma cama, que me acordou aos abanões, e isso não é de todo fácil.
A cama oscilava da esquerda para a direita, qual onda de mar e que nos fez sentar bem direitinhos na cama:
Meu rapaz “o que é isto”
Eu”não acredito, estamos a viver um terramoto, em Maputo isto não acontece”
Meu rapaz “acordamos os filhos?”
Eu “...........”
Saltamos da cama com alguma esperança de que estivessemos a vivar um pesadelo, que fosse uma impressão, um enganos. Mas não era. O efeito, infelizmente manteve-se, e aí sim sentimos que a cama além de continuar a passear, o prédio todo estava literalmente a abanar.
Apodera-se o medo pelas duas crianças que dormiam serenamente e nem sentiram, apodera-se a insegurança de não sabermos se vamos sair ilesos, e assola-nos a impotência de nada poder fazer até que pare.
Não durou mais do 2 ou 3 minutos, mas resultaram num extremo longo percurso de redefinição de toda a vida. O que é que importa neste momento?
O abanão parou, a vertigem (literal) ficou e veio a tomada de decisão, já que sabemos da existência de réplicas. Sucedem-se uma série de acções normais. Ligar para o Inst. De Meteorologia e não haver uma alma penada para que nos fosse dada alguma (zinha), os celulares cessaram a sua activade por “overload”, ligar a TV para ver a CNN, e esta foi de facto a primeira a anunciar o sucedido.
A terra tremeu a 530kms de Maputo com uma magnitude 7.5
Saber na cidade quem sentiu, quem não sentiu. Sabemos das pessoas da embaixada de portugal todas no r/c de pijama incrédulos. Aliás como todos. Descobrimo que a Av. Kenethe Kaunda nada sentiu, ligamos para um amigo que lá mora e toca de exportar crinaças, cadela muito prenha (esta foi dormir com o marido, muito contrariada mas como está prestes a parir,achei melhor deixar-lhe com a sogra!!!), um saquinho com escovas de dentes, máquina fotográfica e...documentos. Se eu morrer, alguém que descubra quem fui.....
Muito difícil acordar dois miudos um de 10 outra de 11, com uma explicação mínima para que o sono não fosse abalado, que tínhamos que sair porque houve um terramoto. Já eram 01h30am. Levamos os dois carros, e lá fomos instalar numa casa, r/c para não haver mais sustos pelo menos nas alturas. Apesar de me ter passado pela cabeça uma tsunamizita.
Ali o casal, nada tinha sentido. Maputo está com assunto e só voltamos a ver uma almofada às 04h00am. Para acordar às 06h00am e levar a miudagem para a escola. Manter a todo custo alguma rotina e normalidade para que não se extrapole a situação.
Mas nada, mesmo todas as intenções de “normal” retiraram o verdadeiro sentir, do viver um terramoto. Essa é a verdade.
A minha filha está a semana e meia de nascer, já viveu na pele o verdadeiro medo, e eu vivi na alma a verdadeira possibilidade de ir desta para melhor, com tanto ainda por fazer.
A cidade de Maputo, encheu-se de pessoas incrédulas. Foi tudo para a rua, sem informação e muitas sem saberem o que se tinha passado. Nunca vi tanta gente de madrugada cá fora. Temperaturas muito quentes, nem uma brisa que desse sopro de vida a quem acabou de passar pelo medo da morte.
Estamos bem, mais atentos, alertas e definitivamente mais conscientes da nossa insignificante vida nesta natureza. De facto é preciso viver para crer.
Agora vou tentar dormir na mesma cama, que me acordou aos abanões, e isso não é de todo fácil.
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quinta-feira, fevereiro 23, 2006
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