segunda-feira, fevereiro 27, 2006

Ser criança

Lá vou eu, ainda de lá saí. Mas não me lembro muito bem como é que se faz isso. Ser criança. Heeeeeeelllllppp!

A madrinha da minha rapariga mandou-me música clássica para bébés e reparo que estou de facto muitíssimo longe. Será que fui criança? O violino arrepia-me e transporta-me para uma dimensão que me escapa, que me parece que não tive. Não me lembro. Canções de embalar, canções de felicidade, vida e esperança. Ai....

Deu-me uma de (chamam-lhe) nidição, a mim parece-me mais uma de: nasce um ser para a semana que vem e faltam ainda algumas coisitas. Haja mama, carinho, boa disposição e .... muitas fraldas.

Não me lembro do “João ratão nem do twinkle twinkle little star” e muito menos da primeira classe, ou segunda ou quarta. Vou ter de voltar à escola (isso excita convenhamos, dá-me algum sentido de renovação), re-criar novos hábitos, dar espaço e acima de tudo “encaixar” – que nem a cabeça dela neste momento – uma nova vida e com tudo o que vem com essa mudança. Ah, mas a mudança não me assusta. Assusta-me mais este mundo que tenho para lhe oferecer, onde ao fim de uma catrafada de anos a mostrar-lhe que “isto” é porreiro para depois vir a descobrir, que não é bem assim.

Mas há magia sim e fantasia e o bem. E as estórias lindas de morrer para contar, e o céu a música, a natureza e a água, o sonho e o sonhar, o animal e o ser animal.

sexta-feira, fevereiro 24, 2006

Rescaldo do abalo

Não conheçço outra terra onde se tivesse vivido um abalo de 7.5 e haver tão poucas baixas: 2 mortos e 28 feridos. É no mínimo um fenómeno. A razão deve-se ao subdesenvolvimento. Não conheço outro terramoto que tivesse sido anunciado e que provocasse tão poucas baixas.

Nem tudo foi mau, além dos que sentiram na pele o terror nas alturas, verificaram-se na horas seguintes acontecimentos giros:

1. Maioria das pessoas com quem falei e que sentiram o abalo no r/c, pensaram que estavam a ser assaltados só tendo percebido que era um cismo quando viram as suas piscinas com mini tsunamis;
2. Maioria das pessoas com quem falei e que sentiram o abalo nas alturas pensaram que era o marido/mulher aos pinotes na cama;
3. A minha empregada mais nova pensou que eram ratos a empurrar a cama, muitos ratos;
os que não sentiram levaram algum tempo a acreditar e os que se encontravam longe gozaram;
4. O meu prédio tem há uns meses postos uns andaimes desde o r/c até ao 25º - nem um mecheu, mas no prédio em si foram abertas rachas e uma varanda caiu. Parabéns à Teixeira Duarte porque sabe colocar andaimes;
5. O Inst. nac. De Meteorologia dormia.....todo, não havia viva-alma para nos prestar algum conforto, informação;
6. Eu enviei por engano um sms que foi parar a um estranho e recebo como resposta a seguinte mensagem: “Depois da noite que passamos, com esse sono todo, falhar o número é muito normal. Como te chamas? Em que cidade estás? Tá tudo bem comvosco? Eu me chamo Vali Maputo. (delicioso......)
7. Os Americanos lançaram um maior panico do que os próprios Moçambicanos;
8. Foram vistos nos relatos feitos com sentido de humor – fenomenal
9. Descobrimos que pode acontecer em Moçambique um terramoto desta magnitude;
10. Nada funcionou no momento do abalo, principalmente os celulares, e devem ter tido na certa o maior volume de utilização, já que estava tudo vivo.
11. Logo após o abalo a Rádio de Moçambique tocava "Nora Jones".

Para terminar, a conclusão a que chegamos, mais pertinente é a de que não estamos minimamente preparados para uma calamidade. E muito mais preparados para os assaltos.

quinta-feira, fevereiro 23, 2006

Terramoto em Maputo

Fomos acordados às 24h40 por um terramoto, num 16º andar. O terror não podia ter sido maior já que a minha cria ainda não nasceu, estamos num 16º andar, e quando um monstro destes de 25 andares baloiça como se de seda estivessemos a falar, o sangue não aquece, congela.

A cama oscilava da esquerda para a direita, qual onda de mar e que nos fez sentar bem direitinhos na cama:

Meu rapaz “o que é isto”
Eu”não acredito, estamos a viver um terramoto, em Maputo isto não acontece”
Meu rapaz “acordamos os filhos?”
Eu “...........”

Saltamos da cama com alguma esperança de que estivessemos a vivar um pesadelo, que fosse uma impressão, um enganos. Mas não era. O efeito, infelizmente manteve-se, e aí sim sentimos que a cama além de continuar a passear, o prédio todo estava literalmente a abanar.

Apodera-se o medo pelas duas crianças que dormiam serenamente e nem sentiram, apodera-se a insegurança de não sabermos se vamos sair ilesos, e assola-nos a impotência de nada poder fazer até que pare.

Não durou mais do 2 ou 3 minutos, mas resultaram num extremo longo percurso de redefinição de toda a vida. O que é que importa neste momento?

O abanão parou, a vertigem (literal) ficou e veio a tomada de decisão, já que sabemos da existência de réplicas. Sucedem-se uma série de acções normais. Ligar para o Inst. De Meteorologia e não haver uma alma penada para que nos fosse dada alguma (zinha), os celulares cessaram a sua activade por “overload”, ligar a TV para ver a CNN, e esta foi de facto a primeira a anunciar o sucedido.

A terra tremeu a 530kms de Maputo com uma magnitude 7.5

Saber na cidade quem sentiu, quem não sentiu. Sabemos das pessoas da embaixada de portugal todas no r/c de pijama incrédulos. Aliás como todos. Descobrimo que a Av. Kenethe Kaunda nada sentiu, ligamos para um amigo que lá mora e toca de exportar crinaças, cadela muito prenha (esta foi dormir com o marido, muito contrariada mas como está prestes a parir,achei melhor deixar-lhe com a sogra!!!), um saquinho com escovas de dentes, máquina fotográfica e...documentos. Se eu morrer, alguém que descubra quem fui.....

Muito difícil acordar dois miudos um de 10 outra de 11, com uma explicação mínima para que o sono não fosse abalado, que tínhamos que sair porque houve um terramoto. Já eram 01h30am. Levamos os dois carros, e lá fomos instalar numa casa, r/c para não haver mais sustos pelo menos nas alturas. Apesar de me ter passado pela cabeça uma tsunamizita.

Ali o casal, nada tinha sentido. Maputo está com assunto e só voltamos a ver uma almofada às 04h00am. Para acordar às 06h00am e levar a miudagem para a escola. Manter a todo custo alguma rotina e normalidade para que não se extrapole a situação.

Mas nada, mesmo todas as intenções de “normal” retiraram o verdadeiro sentir, do viver um terramoto. Essa é a verdade.

A minha filha está a semana e meia de nascer, já viveu na pele o verdadeiro medo, e eu vivi na alma a verdadeira possibilidade de ir desta para melhor, com tanto ainda por fazer.

A cidade de Maputo, encheu-se de pessoas incrédulas. Foi tudo para a rua, sem informação e muitas sem saberem o que se tinha passado. Nunca vi tanta gente de madrugada cá fora. Temperaturas muito quentes, nem uma brisa que desse sopro de vida a quem acabou de passar pelo medo da morte.

Estamos bem, mais atentos, alertas e definitivamente mais conscientes da nossa insignificante vida nesta natureza. De facto é preciso viver para crer.

Agora vou tentar dormir na mesma cama, que me acordou aos abanões, e isso não é de todo fácil.

quarta-feira, fevereiro 22, 2006

4.30am e 1kg de uvas sultanas

É o que acontece entre tantas outras coisas. Será este um apetite de grávida? Acho que não, diria mais a gestão de ansiedade.

terça-feira, fevereiro 21, 2006

Barriguez

Ando bem mais ansiosa do que há uns tempos, onde a a gestão do estado parecia até aqui mais fácil, suportável e bonita.

Agora não, pareço uma pata choca, ando que nem uma tartaruga, para quem me conhece é tipo de ferrari a carocha.

Não é meu estilo, mas lately a coisa tem estado a custar ...demais. Pelo calor, pela constante sensação de que vamos rebentar a qualquer momento, pela ansiedade de ter a minha cria nos meus braços (será que vai gostar de mim?), pelo aumento de sensibilidade e repúdio a tudo o que possa vir a trazer bactérias indesejadas à sua entrada (como o lixo que de novo voltamos a acumular nesta cidade), enfim paremos por aqui.

Mas não menos raro, é a solidariedade das mulheres de todo o tipo, feitio e religião e a elas agradeço o detalhe, a atenção quando a mim se dirigem sem me conhecerem e dizem coisas do tipo:

“Ainda falta muito? Aguente firme”

“Eu sei o que está a passar, não desespere” (e olham para os meus pés...)

“Então, está a correr tudo bem?”

“Dê cá a água que não deve estar a carregar peso nesta fase”

“Precisa de alguma coisa?”


Não sonham o bem que sabe, porque as minhas costas fraquejam ante o puxão frontal, não sonham como sabe bem saber que sabem o que se passa, não sonham o alívio que é saber que não estamos sozinhas num momento que custa de facto. São raros os momentos de alívio físico, que é o que me está a custar e ter alguém que nos é estranho preocupar com o nosso estado, produz hormonas muito positivas. Pela primeira vez na minha vida sinto que não sou julgada, por outras mulheres, de inimiga a amiga, passei o teste do sacrifício, já posso ser respeitada.

Está quase a acabar esta fase e sei que terei saudade dela, já o disse aqui – neste momento em que a minha filha é só minha - e que esquecerei com rapidez o mal que proporciona o estado de barriguez.

Há uns posts atrás abordei a questão da dignidade de todo este processo, e não vem tarde o artigo da última revista “Pais e Filhos”, onde a maternidade Alfredo da Costa revamped todo o seu aparato mais que atrasado tudo em nome da dignidade e acompanhamento da mulher neste momento.

Seria inteligente que passasse a existir um maior conhecimento e sensibilidade para o que uma mulher passa quando gere um ser dentro de si, não científicamente – largamente abordado – mas socialmente e biologicamente. Não para ser tratada como uma doente (apesar de muitas mulheres realmente passarem muito mal), mas e apenas ser tratada com a devida atenção que merece. Pode ser que resulte daí um maior cuidado de sim mesmo, uma maior forma de reduzir quiça piores estados de barriguez.

Tenho ouvido também comentários engraçados perante a possibilidade de entrar em depressão – baby blues. Não tenho pensado muito nesse aspecto, mas esta noite tive um sonho muito engraçado, onde uma plateia de miudos, os que fizeram o videio clip dos Pink Floyd “another brick in the wall”, a gritarem ao mesmo tempo “you should be crying more!”, e confesso que de facto chorar ainda não aconteceu com esse sentido. Posso vir a ter surpresas daqui para a frente.

Aliás, essa a grande aprendizagem durante todo este tempo – cada barriga é uma barriga e tudo aquilo que planeamos acontece sim mas ao contrário.