quinta-feira, fevereiro 23, 2006

Terramoto em Maputo

Fomos acordados às 24h40 por um terramoto, num 16º andar. O terror não podia ter sido maior já que a minha cria ainda não nasceu, estamos num 16º andar, e quando um monstro destes de 25 andares baloiça como se de seda estivessemos a falar, o sangue não aquece, congela.

A cama oscilava da esquerda para a direita, qual onda de mar e que nos fez sentar bem direitinhos na cama:

Meu rapaz “o que é isto”
Eu”não acredito, estamos a viver um terramoto, em Maputo isto não acontece”
Meu rapaz “acordamos os filhos?”
Eu “...........”

Saltamos da cama com alguma esperança de que estivessemos a vivar um pesadelo, que fosse uma impressão, um enganos. Mas não era. O efeito, infelizmente manteve-se, e aí sim sentimos que a cama além de continuar a passear, o prédio todo estava literalmente a abanar.

Apodera-se o medo pelas duas crianças que dormiam serenamente e nem sentiram, apodera-se a insegurança de não sabermos se vamos sair ilesos, e assola-nos a impotência de nada poder fazer até que pare.

Não durou mais do 2 ou 3 minutos, mas resultaram num extremo longo percurso de redefinição de toda a vida. O que é que importa neste momento?

O abanão parou, a vertigem (literal) ficou e veio a tomada de decisão, já que sabemos da existência de réplicas. Sucedem-se uma série de acções normais. Ligar para o Inst. De Meteorologia e não haver uma alma penada para que nos fosse dada alguma (zinha), os celulares cessaram a sua activade por “overload”, ligar a TV para ver a CNN, e esta foi de facto a primeira a anunciar o sucedido.

A terra tremeu a 530kms de Maputo com uma magnitude 7.5

Saber na cidade quem sentiu, quem não sentiu. Sabemos das pessoas da embaixada de portugal todas no r/c de pijama incrédulos. Aliás como todos. Descobrimo que a Av. Kenethe Kaunda nada sentiu, ligamos para um amigo que lá mora e toca de exportar crinaças, cadela muito prenha (esta foi dormir com o marido, muito contrariada mas como está prestes a parir,achei melhor deixar-lhe com a sogra!!!), um saquinho com escovas de dentes, máquina fotográfica e...documentos. Se eu morrer, alguém que descubra quem fui.....

Muito difícil acordar dois miudos um de 10 outra de 11, com uma explicação mínima para que o sono não fosse abalado, que tínhamos que sair porque houve um terramoto. Já eram 01h30am. Levamos os dois carros, e lá fomos instalar numa casa, r/c para não haver mais sustos pelo menos nas alturas. Apesar de me ter passado pela cabeça uma tsunamizita.

Ali o casal, nada tinha sentido. Maputo está com assunto e só voltamos a ver uma almofada às 04h00am. Para acordar às 06h00am e levar a miudagem para a escola. Manter a todo custo alguma rotina e normalidade para que não se extrapole a situação.

Mas nada, mesmo todas as intenções de “normal” retiraram o verdadeiro sentir, do viver um terramoto. Essa é a verdade.

A minha filha está a semana e meia de nascer, já viveu na pele o verdadeiro medo, e eu vivi na alma a verdadeira possibilidade de ir desta para melhor, com tanto ainda por fazer.

A cidade de Maputo, encheu-se de pessoas incrédulas. Foi tudo para a rua, sem informação e muitas sem saberem o que se tinha passado. Nunca vi tanta gente de madrugada cá fora. Temperaturas muito quentes, nem uma brisa que desse sopro de vida a quem acabou de passar pelo medo da morte.

Estamos bem, mais atentos, alertas e definitivamente mais conscientes da nossa insignificante vida nesta natureza. De facto é preciso viver para crer.

Agora vou tentar dormir na mesma cama, que me acordou aos abanões, e isso não é de todo fácil.

quarta-feira, fevereiro 22, 2006

4.30am e 1kg de uvas sultanas

É o que acontece entre tantas outras coisas. Será este um apetite de grávida? Acho que não, diria mais a gestão de ansiedade.

terça-feira, fevereiro 21, 2006

Barriguez

Ando bem mais ansiosa do que há uns tempos, onde a a gestão do estado parecia até aqui mais fácil, suportável e bonita.

Agora não, pareço uma pata choca, ando que nem uma tartaruga, para quem me conhece é tipo de ferrari a carocha.

Não é meu estilo, mas lately a coisa tem estado a custar ...demais. Pelo calor, pela constante sensação de que vamos rebentar a qualquer momento, pela ansiedade de ter a minha cria nos meus braços (será que vai gostar de mim?), pelo aumento de sensibilidade e repúdio a tudo o que possa vir a trazer bactérias indesejadas à sua entrada (como o lixo que de novo voltamos a acumular nesta cidade), enfim paremos por aqui.

Mas não menos raro, é a solidariedade das mulheres de todo o tipo, feitio e religião e a elas agradeço o detalhe, a atenção quando a mim se dirigem sem me conhecerem e dizem coisas do tipo:

“Ainda falta muito? Aguente firme”

“Eu sei o que está a passar, não desespere” (e olham para os meus pés...)

“Então, está a correr tudo bem?”

“Dê cá a água que não deve estar a carregar peso nesta fase”

“Precisa de alguma coisa?”


Não sonham o bem que sabe, porque as minhas costas fraquejam ante o puxão frontal, não sonham como sabe bem saber que sabem o que se passa, não sonham o alívio que é saber que não estamos sozinhas num momento que custa de facto. São raros os momentos de alívio físico, que é o que me está a custar e ter alguém que nos é estranho preocupar com o nosso estado, produz hormonas muito positivas. Pela primeira vez na minha vida sinto que não sou julgada, por outras mulheres, de inimiga a amiga, passei o teste do sacrifício, já posso ser respeitada.

Está quase a acabar esta fase e sei que terei saudade dela, já o disse aqui – neste momento em que a minha filha é só minha - e que esquecerei com rapidez o mal que proporciona o estado de barriguez.

Há uns posts atrás abordei a questão da dignidade de todo este processo, e não vem tarde o artigo da última revista “Pais e Filhos”, onde a maternidade Alfredo da Costa revamped todo o seu aparato mais que atrasado tudo em nome da dignidade e acompanhamento da mulher neste momento.

Seria inteligente que passasse a existir um maior conhecimento e sensibilidade para o que uma mulher passa quando gere um ser dentro de si, não científicamente – largamente abordado – mas socialmente e biologicamente. Não para ser tratada como uma doente (apesar de muitas mulheres realmente passarem muito mal), mas e apenas ser tratada com a devida atenção que merece. Pode ser que resulte daí um maior cuidado de sim mesmo, uma maior forma de reduzir quiça piores estados de barriguez.

Tenho ouvido também comentários engraçados perante a possibilidade de entrar em depressão – baby blues. Não tenho pensado muito nesse aspecto, mas esta noite tive um sonho muito engraçado, onde uma plateia de miudos, os que fizeram o videio clip dos Pink Floyd “another brick in the wall”, a gritarem ao mesmo tempo “you should be crying more!”, e confesso que de facto chorar ainda não aconteceu com esse sentido. Posso vir a ter surpresas daqui para a frente.

Aliás, essa a grande aprendizagem durante todo este tempo – cada barriga é uma barriga e tudo aquilo que planeamos acontece sim mas ao contrário.

domingo, fevereiro 19, 2006

More ice please!

Não sou pessoa de grandes extremos, for a a minha decisão te ter vindo viver para África, engravidar e virar empresária. Mas existem algumas questões que nos acompanham, enquanto seres humanos que vale a pena dar alguma atenção, sem alarmismos. Uma delas é a comida.

Vi uma peça na CNN, onde a própria a seu custo envia para um laboratório, gelo retirado das máquinas, self-service duma amostra de 50 restaurantes, na sua grande maioria fast food (mas os americanos não têm outra coisa também), de 50 cidades diferentes. Imaginem lá os resultados?????

A mairoria apresentava vestígios de fezes! Humanas??? Credo. Talvez o resultado mais estranho tenha sido o de Nova York, das poucas cidades onde o gelo estava limpo de vestígios estranhos, aparentemente pelo facto de que exsitem inspectores de saúde e mesmo apesar da provavel mafia, acaba por funcionar. Das cinquenta, só cerca de 7 é que estavam.....ok! Número assustador.

Consequência: simples e parecidas com aquelas das salmonelas. Vómitos, dores abdominais, febres, diarreias......and so on.

O meu irmão em JHB lamenta-se imenso do “tummy bug” nome pomposo para uma eventual razão tão simples como o gelo que pomos na coca-cola, na água, no sumo.

Mas a bater a minha lista de preocupação continua ainda no top a ignorância.

quinta-feira, fevereiro 16, 2006

Comunicação X informação

Foi em Montepuez que há uns anos quando lá fui em trabalho, pouco antes das mortes na prisão, que senti na pele a grande diferença entre a comunicação e a informação. Com um simples gesto, de um andante que me vê a passar lentamente na ponte, porque ali se encontrava ainda uma mina, homem comido pelo sol e pelo tempo. O gesto que comunicou uma simpatia natural a informação de me dizer olá.

Não consegui dizer a idade dele, não é fácil. Mas pela pele senti-o já sábio. De quê? Não sei, da vida. Da vida dele, ali naquela vila tão longe de tudo, de todos.

Porque me quis este homem cumprimentar, porque senti eu tanta humanidade neste coração por um estranho que na certa não mais o verei.

Não pediu nada, acho que nem sequer sabe o que isso quer dizer, não o pratica porque leva a vida que leva. Na altura em que lá fui, não havia televisão. Só rádio. E o jornal lá deve chegar a custo e com dias de atraso.

Foi em Montepuez que me assolou o desgaste da informação a que estou sujeita e mais não sei viver sem ela. Mesmo que nada comunique, que nada me diga.

Dou por mim a discutir planos de comunicação que possa passar uma qualquer mensagem e venda, venda algo de preferência a informação.

Mas este processo não é nem simplista nem básico, não pensem.

Além dos noticiosos daqui, fazem parte quase diária da minha leitura, muitas vezes na diagonal (a falta do tempo...) a CNN, BBC, Sky News, Euro News, Rtpi e até a de Angola.

É aqui que começa a complicar.

Foi em Montepuez, que senti também que no dia-a-dia, de nada vale estarmos tão informados, senão pelo poder da informação, que nos permite acompanhar e até liderar uma conversa, uma defesa, um argumento o respeito até. Mas é acima de tudo pelo poder. Alguns psicólogos destes países assumem que não temos a capacidade de tanto reter nem – o mais grave – analisar.

O homem de Montepuez passou-me a informação de que no parar conseguimos andar. Quando me olha com aqueles olhos mais que profundos, negros e cheios senti vontade de parar, deixar entrar a comunicação dele na minha. Os pneus do Defender erama única fonte sonora. Caso contrário teria feito mais barulho aquele cumprimento de sorriso aberto, incondicional, feliz por existir dum homem que já estava no seu caminho e não se moveu dele.

Foi em Montepuez que aprendi a ouvir o silêncio.