terça-feira, janeiro 24, 2006

Eleições presidenciais

As de Portugal fizeram-me lembrar as de Moçambique. A falta de oferta. Não quantitativa, apenas qualitativa. Cavaco só podia ganhar.

quinta-feira, janeiro 19, 2006

Hoje acordei saloia

Eu não sabia que o era. Ouvi atentamente o programa do Prós e Contras ontem e desculpem-me a saloiice, ri-me como não me lembro de o fazer com um programa televisivo gravado em directo mas que chega aqui indirecto!

Disseram-me tantas vezes que sou saloia por esta razão e por aquela razão que me deitei a pensar, qual poder de sugestão (o poder televisivo), que se calhar era saloia e não o sabia.

Mas esta saloia que vive fora do mundo saloio luso vive de perto toda a alma, que no caso de Moçambique, que por cá foi sendo deixado ao longo dos longos anos. Mesmo com o ódio no meio é visível o culto lusitano em cada área que se possa imaginar. Arrisco-me a dizer que os não lusos mas lusófonos têm uma idéia um pouco mais clara sobre a identidade portuguesa do que os próprios. Mas quem sou eu.

Houve no início do século alguns exportados lusos para o Hawai, e ainda hoje numa perfeita mescla de culturas que por lá existe desse tempo, o pão doce dos portugueses é deliciosamente apreciado. Portanto a comida é sem dúvida alguma uma das vertentes. Mas isso é o que já sabemos.

Mas como estou saloia, sou saloia, serei saloia e assumo ser saloia, mas nada saloio sei o que dizer e todos os saloios que me lerem, sejam saloios retiro-me com nariz erguido, orgulhoso porque agora sei que sou saloia.

Saloio- camponês dos arrabaldes de Lisboa, rústico, grosseiro, finório, velhaco; diz-se de uma qualidade de pão e de outros produtos dos arredores de Lisboa, esperteza, esperteza ardilosa. In Dicionário Universal 3ª edição

terça-feira, janeiro 17, 2006

Não leiam isto!

Sei que evoluimos muito, de há uns 200 anos para cá nada é como dantes. A todos os níveis. Mas mesmo com toda a nossa evolução, há uma área onde a mim me parece bastante primitiva na sua abordagem – a ginecologia. Mesmo com os avanços.

Eu explico. À medida que se aproxima a hora do parto, existem uns pormenores esquisitos de todo o processo de nascimento que me fazem arrepiar. Porque sou mulher mas talvez pior ainda porque sou reservada a tudo o que diga respeito ao meu corpo. Vamos aos detalhes.

Uma mulher passa por uma série de dores que a impossibilitam sequer de comandar ou melhor controlar o seu corpo no parto, mas nem por isso deixa de pensar nos pequenos “quês” e que a fazem sentir-se algo “invadida” e impotente para dignificar a sua intimidade.

Vontade de fazer (como é que preferem: cócó ou fezes?) uma necessidade – para isto à resposta eficiente aplicando o clister. Depois só temos é que acertar com a retrete, certo?

Necessidade de se “rapar” os pelos pelo risco de infecção e incómodo enquanto a cria vai saindo – para isto devem chegar ali à zona e zás, rapam (será que terei sequer vagar para ver se a gilete é safe?

No caso da cesariana (o meu já que a minha filha sai em tamanho ao pai, o que quer dizer GRANDE), ainda temos de pensar na algalia – que doi, é incómoda e só retiram horas depois da operação. Vamos (como é que preferem mijar, fazer xixi ou urinar) fazendo a necessidade na cama para um saquinho herméticamente fechado.

O toque – o maldito toque. Será que preciso dizer alguma coisa a este respeito. É como as idas à ginecologia: papa-nicolau, palpações (para não dizermos claro apalpações) da zona, dos peitos – enfim toda uma área bastante íntima e que não há como contornar. Lá vou escolhendo mulheres que sempre reduzo o risco, mas com a homosexualidade hoje em dia nunca se sabe bem.

Abrir pernas – esta também me mata e não há como contornar a coisa. É por ali que a cria sai. No meu caso valha-me a cesariana.

Amamentar – a enfermeira (só testemunhei) chega-se ao peito, escolhe um deles como se do nosso corpo não tratasse, agarra literalmente nele (uma pessoa que nunca vimos antes) e vai metendo na boquinha da cria, olhando para nós com o ar mais corriqueiro deste mundo. Quantas mamas não deve ela ou ele agarrar por dia. Eu é que não tenho a mesma experiência, não é assim?

Não estou a colocar maldade nisto, atenção. Mas é preciso que se entenda o que poderá querer dizer uma ida à ginecologia ou passar por um parto.

Há dias, no zapping televisivo enquanto aguardava as noticias da RTPi, espequei ante a apresentação duma família imensa portuguesa, na praça da alegria onde a avó centenária (parteira ela própria, assistiu-se a ela própria!!!) dizia assim para uma das filhas (teve 15 deles, credo) o seguinte:

“Oh filha, não grites porque não gritaste para o fazer” - pois.

É estranho que nenhuma das maravilhas

do mundo seja uma – a de dar vida. O da procriação, da continuidade, da geração de um ser. Muito estranho. Mas agora sei porquê.

Estou completamente rendida à minha total limitação, mais física que mental. Apesar de nos últimos dias andar meio esquecida, meio navegante sobre os dias, meio aparvalhada com toda esta condição.

Entrei para o meu oitavo mês de barriga e o assunto ficou sério, senão vejamos: deixei de ter vontade (seja do que for para além de fome), passei a estar demasiado pesada (apesar de estar com 11kgs a mais e ao que se diz muito pouco, YA!!!), a barriga parece que vai explodir a qualquer momento, subiram níveis de sensibilidade que mais parece um drama, tudo o que me era simples fazer é agora muito difícil, um estado de alerta impressionante, uma falta de paciência atroz, a ansiedade que estremece a confiança, a dificuldade do movimento, meu deus o levantar é impossível.

Qualquer coisa é melhor do que estar neste estado de graça, que de graça não tem absolutamente nenhuma, é preciso acreditarem. Enquanto comia um croissante e vejo uma barriga entrar, com mais dois catraios já cá fora, reflito para o meu rapaz:

“o respeito que tenho hoje por uma barriga, a compreensão faz com que passe a outro pensamento. A ciência deveria evoluir o suficiente para que os homens passasem a ter a barriga, já que fisicaemente estão muito mais preparados do que nós”

Aprendi há dias que o único macho na natureza a carregar uma barriga, não de uma cria mas no mínimo de 100, é o cavalo marinho. Animal sensível, pequeno mas que “oferece” à fêmea a sua barriga para carregar e dar à luz. Recebe dela os ovinhos fecundados e já está, fica barrigudo. Não se conhece mais nenhum macho a fazê-lo.

Meu rapaz, diz-me então com suavidade “se soubesses que seria assim terias filhos na mesma?”, pergunta difícil mas pertinente, muito pertinente. A resposta (original) foi “nim! Teria sim um filho, não mais. A barra é demasiado pesada para sequer entender quem tenha 16 filhos. Arrasto a responsibilidade de poder gerar vida neste meu corpo, mas pago um preço elevadíssimo”.

O meu traseiro, sei-o agora andava meio desconfiada da sua função além da biológica, serve de estrutura sustentável para todo o peso. Como é que não haverá de crescer? Digam-me lá. E quem diz que é proporcional? Hein?

É passageiro dizem-me as mulheres, um passageiro que no mínimo o último trimestre leva-nos a mal-dizer muitas coisas.

Um amigo dizia esta noite “então Passada estás bem?”
Respondi “Estou sim, e tu?”
Amigo “Eu não estou grávido!!!”

Não se apoquentem, as mulheres que me vão lendo porque isto é passageiro, uma passagem para a outra margem.

sábado, janeiro 14, 2006

Meu 1º roubo e a febre tifóide

Foi à mão armada e levaram-me um carro, inteiro. O 2º e o 3º não falarei, porque do primeiro já poucos acreditavam (isto em portugal, por estas bandas sabe-se...).

O estado de gravidez leva-nos a muitas sensações, umas estranhas outras surrealistas ou ainda do tipo “credo, será que acabei de pensar nisto? Desta forma?” não, não é possível.

Mas há dias, estava eu em plena hora de- filha tira lá o pé da costela que está a doer – quando me lembrei do primeiro carro que me foi roubado à mão armada, o que senti e as condiões em que aconteceu.

Meu pai preparava-se para regressar à sua terra após loooooongos anos de Maputo, quando a dois ou trés dias de eu o levar para Jhb, me dirijo a casa duma amiga para ir tomar um café e tudo se passou.

Eram nove da noite, eu tinha uns verdes 27 anos solteira e boa rapariga. Ao chegar ao estacionamento da casa da minha amiga, meto o carro de rabo, motor ligado (ainda não tínhamos celulares a funcionar) à espera que ela descesse. A seguir foram uns acontecimentos rápidos, duros, agressivos e bem reais.

O estacionamento só tinha uma saída possível, onde eu me encontrava pronta para arrancar assim que ela entrasse. Não havia muito movimento, um guarda velhote sentado à porta a guardar não sei bem o quê, uns escassos transeuntes e uma zona que ainda hoje serve de barreira entre os “têm” e os “não têm”. Eu não tinha reparado qua a minha amiga estava já em baixo à volta do 4x4 do pai dela a fazer não sei o quê.

No momento exacto em que destranco o carro, qual central locking que abre as portas todas, entra um carro escuro de frente para o meu com 4 homens cresciditos, ar de “feios, porcos e maus”, quando um entra logo para o lugar do morto e o outro, o do meu lado se aproxima de mim a passos rápidos empunhando uma não sei o quê de calibre que faz um som, que foi das poucas coisas que me ficaram na memória como trauma – o de carregar a arma. Um som gélido e que provocou a maior descarga de adrenalina que alguma vez tive em toda a minha vida. Era uma arma prateada.

Congelei e apercebi-me da seriedade do acto. É nessa altura em que a minha amiga grita pelo meu nome, não sabendo bem o que se passava e a arma até aqui virada à minha cabeça (neste momento não interessa bem onde já que ao ser disparada, morreria de certeza) e eu vejo a arma a virar-se para ela. Encontrava-se a uma distância de cerca de 20 metros. Entrou segundo pânico, vai atirar à minha amiga já que este foi um acontecimento inesperado e normalmente provoca receio ou medo nos ladrões.

Tive medo pelo primeira vez, eles não podiam atirar nela, que não tinha nada a haver com o assunto, se houvesse feridos que fosse eu. Ocorreu-me mexer na chave do carro para tentar desviar a atenção do que tinha poder naquele momento e resultou na perfeição. O rapaz esqueceu a minha amiga, agarrou-me no meu braço e arrancou-me assim mesmo do carro, para fora. Meu único ferimento – uma nódoa negra no braço dumas mãos pesadas, enormes.

Ao levantar-me do chão, olho para a minha amiga e confirmar que estava bem, mas não tinha ouvido tiro nenhum, começa neste momento o meu sangue a esfriar e as pernas a tremer.

Eles, com o carro arrancaram convictos, mais ricos. Eu, levantei-me e ainda corri atrás do carro pela estrada fora. Talvez o acto mais desesperante e de choque que podia ter.

Quando paro e apercebo-me que o carro inteiro foi, só me circulava na mente a grande sorte de não haver sangue em lado nenhum e em ninguém.

O resto da noite foi o pesar de ter que informar o sucedido a um pai, subir 11 andares duas vezes e ir à polícia para declarar o acontecido. Nada e nenhum dos segundos seguintes fizeram melhorar o sentimento de ódio.

Arrancaram-me um carro à força, mas não a vida. Foi o saber que me levaram o carro não para alimentar nenhuma criança mas sim uma rede de peças ou de venda de carros (que raio interessa???) e a estranhíssima lição aprendida – bens materiais perderam por completo o seu sentido, o seu valor.

A vulnerabilidade duma mulher neste mundo cão é muitas vezes assim lembrada. No caso dos homens penso será pior já que os ladrões não correm riscos – atiram. Não melhora.

O 2º e o 3º já foram marcados por uma frieza e experiência, muito necessária para se sair ileso. A única lição aprendida. Quais centros de apoio à vítima, traumas embrenhados mas nunca esquecidos.

Se serve de consolo para os mais descrentes, maior trauma não existe do que apanhar uma frebre tifóide. Condição que me levou uns

meses a recuperar e onde ainda hoje, passados anos se faz sentir no organismo.