sábado, dezembro 24, 2005

Para ti Pai, um bom natal, porque não estás perto.

Sabes, eu conheci-te ainda eu não tinha nascido. Já eu vinha a caminho deste tão estranho mundo e ao sair da barriga da minha mãe eu tinha como presente de chegada um pai.

Esse pai, este pai é especial, muito especial. Começou esta aventura de ser tua filha (acredita que não é uma tarefa lá muito fácil...) quando sofrega por vida começo a respirar e a olhar à volta sem perceber “patavina” onde estava e o que aqui vinha eu fazer. Logo aqui passaste-me tu um gene teu muito característico – o de amar a vida. Este gene que veio marcar o passo e fazer o meu caminho 35 anos depois, até hoje sigo à risca este amor, esta paixão pela vida. Que afinal é também tua.

Mais tarde, muito provavelmente reconheci, sem o saber, os braços fortes confortantes e seguros do meu pai, os teus braços. O teu carinho e total “baba” de ser menina, rechonchuda, cor-de-rosa e mais-nãosei-o-quê, que definia a tua alegria de teres uma rapariga como filha. Também aqui e logo desde o início definiste todo um caminho de exigência enorme como que por devolução do teu enorme amor por este babby, que foi a menina dos teus olhos. Visível nas correcções sejam de gramática, ortográficas ou de carácter. Ainda hoje.

Mais tarde ainda, já andava pelos meus próprios pés e em visita a um jardim zoológico, se a memória não me falha em Joanesburgo, tiraste uma fotografia a um orangotango e dedicaste umas palavritas simpáticas atrás – “ a passada quando fica amuada é parecida com o orangotango”. Na altura claro, nada entendi. Hoje, e de novo quiça sem tu próprio te aperceberes, viste com os teus próprios olhos mais uma especificidade desta tua filha, talvez das maiores e mais marcantes – a injustiça. Na altura se calhar confundida com birra, mais tarde um vínculo estreito com esta relação do justo pelo mundo fora homens e animais. A mais pequena formiga tinha o seu espaço nas minhas passadas – “cuidado pai, não pises a formiga...”. Need I say more?

Isto é um blog, isto é uma prenda de natal – não posso alrgar muito, até porque não chega por vezes o espaço físico mas sim o temporal para mostrar-mos o amor, o carinho e o afecto por um pai.

Mas preciso falar na música, essa grande professora da vida que tive e grandemente responsável por manter o meu equilíbrio naquela fase tão esquisita dos seres humanos – a adolescência. Inúmeras viagens nossas, de carro ou outro meio de transporte, esteve sempre presente a música. Ou porque cantavamos juntos em aparelhagem Blaupunkt (como é que se escreve mesmo?) ou porque me enfiavas os auscultadores no avião ou simplesmente cantavamos em águas turbulentas, no carro um Frank Sinatra ou o “Old Macdonalds had a farm...”. Como eu queria tanto esses animais e quinta. A liberdade.

Alicersaste todo o meu ser, com o caminho que percorri contigo e fez de mim (espero eu) uma filha que te orgulhes de ter, mas o mais importante foi o ter vindo para este mundo e receber de prenda um pai como tu. Não te trocaria por nenhum outro, mesmo que oferecido por Aladin ou uma bandeja de estanho.

Gosto de ti assim mesmo como és, trapalhão, vivo, inteligente, chato, com humor (bonitão ao que dizem eh,eh), exigente, carinhoso, bom condutor, aventureiro, pronto a assumir riscos e decisões, independente, conversador, humano, com gosto.

Já caiu a lágrimazita?

Estás em cada pôr-de-sol, em cada onda do Índico que me traz o sul, em cada folha, em cada rosto, em cada lágrima ou sorriso, em cada pai que existe no mundo, em cada árvore ou pétala, em cada sonho ou palavra, em cada segundo de vida que eu respiro porque és o meu pai e és uma pai que qualquer filho deste mundo adoraria ter. Porque te tenho e tenho essa sorte. Essa é a melhor prenda que eu posso ter.

Um bom natal para ti desta tua filha que te ama muito e não te esquece nunca.

sexta-feira, dezembro 23, 2005

Quando a felicidade se vê em:

50kgs de farinha de milho
20kgs de amendoim
20kgs de feijão nhemba
30kgs de arroz
15lts de óleo
12 barras de sabão
1cx de maggi galinha
6latas de atum
12pacotes bolacha maria
12latas de leite condensado
6kgs de sal grosso
2latas de "JAM" família
12kgs de açucar castanho
12sabonetes "gueisha"
1lata de leite Nido
2pacotes de chá "five roses"
10 velas

Aproveito para desejar a todos, sem excepção um excelente natal, uma entrada em 2006 cheia de energia positiva, boas intenções, pouco cinismos e muita alegria.

Um abraço a todos e se alguém aí por esse mundo se sentir só.....façam um filho!!!! :)

sexta-feira, dezembro 16, 2005

Honoris Causa - Marcelino dos Santos

Não posso ser erudita nesta tema. Por muitas razões, mas uma delas releva-me à minha própria entrevista com este monstro da política, das independências, da esquerda persistente, há uns anos em que gastei 3 cassetes de 90 minutos com ele e onde, me faltou a total capacidade de as transcrever para umas parcas 4 folhas em A5.

Assisti no dia 14 de Dezembro de 2005, das cerimónias solenes mais simples, bonitas e derradeiras. Para quem conhece a história de Moçambique (pouco que seja), a pessoa em causa, terá de saber que apesar de tudo é uma homenagem atempada e justa.

Foi atribuído o título de Causa Honoris em ciências Políticas a Marcelino dos Santos, e nessa noite o seu Padrinho proferiu um texto absolutamente delicioso, só possível quando se tem um "subject" com o caminho do Marcelino, deliciando-me totalmente com a beleza que as palavras podem ter. É que tenho andado meio esquecida, meia culpa.

Marcelino estava verdadeiramente emocionado...mas tão intrínseco que está nele, não resistiu a proferir as suas palavras politizadas, mas no final da noite já no jantar tivemos o previlégio de ver em representação cantada, clamada e dançada versos da sua poesia que é de facto arrancada de um ventre muito africano. Pode-se atribuir um discurso versado, encontrar até a política mas é na sua poesia que se pode sentir o seu coração, a sua mágoa e dor de poeta dum homem que cresce num país convulsivo, saído de umas brumas para entrar noutras. É na sua poesia que vejo o grande potencial mas acima de tudo a grande paixão que este homem transpira pela sua terra, pela ligação maternal, pela árvore, pela cultura, pela dureza que foi ter crescido nesta terra "Moça".

Marcelino aguentou-se sem adormecer (tenho visto algumas sonecas porque é natural), pasmo com tanta dedicação e foi nessa noite que os que tinham dúvidas da sua total liberada palavra, ficaram claro com alguma inveja desse poder adquirido.

Não me vou esticar muito no seu caminho, mas é preciso lembrar que a sua importância, o seu caminho não se resume a Moçambique, juntamente com Amílcar Cabral e Agostinho Neto, este homem foi dos maiores responsáveis pelas independências africanas. O pós é que já é outra conversa.

Como foi bonito ver a reacção familiar, perfeitamente babada.

Este é um homem que pertence a Moçambique e não vale a pena reclamar o contrário, estará a enganár-se a si próprio. Eu sei que o Marcelino será o grande homem político de Moçambique, o homem de Moçambique e um dia em que ele não esteja mais entre nós será então descoberto o tanto que ainda não foi posto em palavras. URGE escrever sobre este rapaz, bibliográficamente.

Quando entrevistei Marcelino, tive o previlégio de ter este senhor da palavra a fazer-me passear pelo ponto de partida - Moçambique - levou-me a todos os cantos do mundo e fez-me voltar ao ponto de partida. Não perdeu por um único momento o fio da conversa, o sentido da conversa e não é qualquer pessoa que consegue esse tipo de concentração com 270 minutos de conversa.

Amado e odiado este rapaz do norte de Moçambique já fez história (nem sempre boa ou positiva) e pasmem-se continua a fazer. Vemos incursões suas nos meios de comunicação que só ele sabe fazer, vemos posturas que só daqui a 20 anos é que se vão perceber ou entender e com isto tudo continua a espalhar simpatia e um sorriso invejável e ele tem talvez dos maiores previlégios, uma mãe centenária que viva, partilha aqueles que são os bons momentos de um filho.

Não é desinteresse! Acreditem

É que dou por mim, a pensar, a viver, a sonhar, a sentir, a falar, a querer, a respirar uma gravidez. E nada nunca na minha vida me espantou tanto quanto a forma como o meu corpo se adapta literalmente a um balão que sobe, sobe.

Estou quase com sete meses dela, as opiniões externas (ao meu corpo e ao meu ser) são as de que estou pequenina, não parecendo estar já tão avançada, mas o certo é que ela - a barriga está enorme para o meu raso corpo. O tanas, isto já pesa nos meus pézinhos que mais parecem aqueles das princesas japonesas que lhes são ligados em terna idade para ficarem pequeninos, a aguentarem os 7kgs que já tenho a mais e sinceramente não imagino como me aguentaria se fossem apenas kilos de comida extra. É que não dá. Há dias viajei de avião e a minha barriguita manteve-se tão "low profile" que não usufrui dos benefício da barriguda, ninguém topou que estava de estado!!!! Hilariante, uma barriga passar despercebida.

Faço desporto diário, uma hora no tapete e exercísios de grávida, bebo muita água e como sem exageros. Foge-me aqueles apetites estranhos, não os tive e penso que não os terei. Raios, gostava tanto de ver o meu rapaz a sair de casa com meio olho aberto tipo às 04am à procura de um pedaço de cacto para comer e preencher o apetite. Mas nada.

O tempo fugiu-me e apesar de achar que isto da barriga, salvaguardando a delicia dos movimentos da catraia - é por demais pesado e duro (acreditem) porque incomóda, porque chateia o sono, porque nos faz crescer abruptamente, porque deixamos de usar os aneis e o relógio, as roupas, não deixa respirar (já vos falei nas costelas que me passaram para as costas né?) - sei que terei imensas saudades de carregar esta vida, que neste momento é só minha, toda minha carregadíssima de egoísmo. Sairá e seguirá o seu curso ciclíco natural.

Dou por mim a olhar para potenciais rapazes que EU SEI não serão boa companhia, nada trarão de acréscimo para o crescimento do ser da minha catraia e tento ainda antes do nascimento algum refreio, porque ela não é minha, não me pertence e terá o seu próprio caminho.

Hoje vejo bem o pesadelo que devo ter sido para os meus pais. No bom e no mau, um verdadeiro "aceitem como sou por favor e deixem-me crescer".

Dou por mim, mãe, dou por mim uma perfeita leôa pronta a dar a minha vida por esta.

Dou por mim com uma calma impensável para o meu carácter, o speed mental sempre foi algo com que batalhei a sério para se enquadrar nesta sociedade, no meio, nas pessoas. Agora muito calma e cada vez menos preocupada com superficicialidades (o que já era um problema grave....neste mundo), descobrindo todo um novo caminho que me nasce de um novo ser, não a minha filha mas eu. Vamos ver o que sobra de mim. Para já continuo a querer mergulhar junto de um great white, apenas uma das minhas paixões.

E no meio desta perfeita convulsão - tenho que manter a minha empresa, continuar a ser normal, gerar lucro, pagar os impostos, os ordenados e manter um ar "desculpe grávida não é inválida, posso continuar com a labuta". Descubro que este mundo não oferece grandes condições para este estado apesar de em termos médicos a coisa hoje está bem facilitada.

A minha Zaka, a cadela que mais me impressionou até hoje (adora ver o animal planet e o national geographic!!!), já se apercebe da barriga, comunica comigo, encosta-se, enrola-se lá me vai dizendo com uma subtileza estranhamente inteligente e emocional para eu não a esquecer, acho que vai proteger demasiado a minha filhota e adoptá-la como sua, já que ela maternalmente ainda não fez a sua.

Por fim sei porque cá ando. Pairava no ar alguma dúvida de sentido, só a cultura o crescimento interno, o desenvolvimento não estava a chegar e encontro finalmente algo que me sacia, mas também sei que chegará o momento em que terei retomar o meu próprio caminho recheado de experiência, de conhecimento, de pessoas, de cultura. Agora com uma asita a cobrir um outro caminho até que ela, a filhota inicie o seu próprio. Apenas posso emprestar a esperança e o guia, o resto ela terá de desbravar.

Passar-lhe o gosto pelo conhecimento e emprestar-lhe a paixão que eu própria tenho pela vida será dos meus maiores sucessos. Sim porque esta vida sem paixão, verdadeira paixão pelo mais pequeno ser, o menos sentido sentimento, a mais iluminada cor, carece de senso, de humanidade, de inteligência e do sentir.

Dedico este vagar mental ao JPT que há dias me disse da falta dos meus textos "já sentimos falta" e devolvendo-me assim a sede.

quinta-feira, novembro 03, 2005

WC ou Toilette ou Casa de Banho

A barriga continua a crescer, crescer, crescer. Nunca estive tão gorda na minha vida, mas também nunca antes tive uma passadita a crescer assim. Houve uma tentativa anterior no ano passado, mas acabei por perder naturalmente. Idade, muita pressão, muitods problemas deram nisso. Mas vamos ao tema de base.

Entre outras coisas que uma mulher deixa pura e simplesmente de fazer, porquetemos uma barriga a crescer, uma existe que não cessa mas aumenta. As idas ao WC.

Caso particular, embarassant-se e até foi na ida ao Kruger fim de semana passado, fazer uma volta nocturna de 3 horas. 3HORAS!!!! Sem ir ao WC, nem pensar. Fazer o quê (agora sei, leva-se uma garrafita e desenrasca-se...), e quando vejo o guia entrar no 4x4 com uma espingarda descansei um pouco, antes o bicho que eu. Apesar de no caso dele estar só à procura de comida ou a defender o seu.

Antes de arrancar, fui e fui, fui e fui ao WC do portão tantas vezes para não deixar lá nada, mas sabem um coisa? Nada valeu senão por uma horita e já apertada. As outras duas foram literalmente a mudar de posição, abrir pernas, esticar pernas para cima (isto com chuva pelo meio, pois), torcer a espinha, exercícios de espinha e postura. Até que num troço de areia, com mato cerrado, sem sombra de vento este cenário conseguiu distrair-me de tal maneira que lá consegui esquecer a vontade. Só vimos coelhos mas a paisagem foi algo que não esperava encontrar no Kruger, mata cerrada com um caminho pelo meio, qual quadro tirado de um filme de terror. Mas lindíssimo.

Conclusão: mulher barriguda não pode nada fazer sem ir persistentemente ao WC. É que somos duas literalmente a mijar.