Divina capulana, me cobres.
Uma manta.
Me tens como uma santa.
Sabes dos meus desejos:
Maputo, Sofala, Nampula.
Não perco o tempero.
Por onde ando, onde vivo, aonde vou
sou Moçambique o tempo inteiro.
Sorrio, danço e canto.
Falo o português sambado
um português de outro jeito.
Assim sou mais feliz.
Meu destino, capulana, nas veias do mundo.
Ou no braseiro: no Brasil.
Quando me cobres
minha alma moçambicana
encanta presente e futuro
com o valor dos meus segredos – no calor dos meus quadris.
Por Walter Ramos de Arruda
terça-feira, dezembro 14, 2004
segunda-feira, dezembro 13, 2004
Choro público.
Pensei não o partilhar, mas depois e pelas circunstâncias adjacentes decidi. Sou assim. Restaurante Costa do Sol é um restaurante muito antigo, lembro-me quando ainda 9 anos de idade os meus pais iam lá jantar e depois de comer ao som dos blá-blá dos adultos meu pai juntava duas cadeiras e adormecia em cima até que se decidissem ir para casa. Esta coisa de jantares de adultos era uma seca. Esta noite eramos 6 pessoas, bom camarão, excelente vinho branco sul africano Boschendal Blanc de Blan, um pão de alho. Estava cheio como não me lembro de ver assim o Costa do Sol, uma arquitectura da belle-epoque, lindíssimo e ainda nas mãos da mesma família grega ao que conheço o Manuel. Passados uma catrafada de anos no tempo caiu sobre mim uma saudade do meu pai, da minha mãe, desses tempos em que nada havia e Samora Machel reinava. Sem qualquer tipo de controle possível comecei a chorar que nem uma Madalena (desta vez não foi de propósito mas ajuda...), descontrolada pela emoção. Um mundo inteiro à volta e não permiti perguntas porque o que eu chorava era sem dúvida alguma a riqueza que tenho que é a de ter o melhor pai deste mundo e a mãe mais doce que se podia pedir. A voçes um beijo grande da filha que vos ama muito.
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segunda-feira, dezembro 13, 2004
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Turbilhão lírico.
É o que acontece a pessoas como eu que estudaram em duas línguas no seu crescimento. É assim, ainda hoje penso em inglês verbalizo em português, rimo em português escrevo poemas em inglês, conto em inglês e o prejuízo sai-me em português. Quem paga as favas são por norma, acentos, trocadilhos ortográficos, significâncias e o turbilhão lírico da expressividade escrita e verbalizada. Sinto-me escandalizadamente só neste processo mental do pensar, porque não existe assim um sindicate que nos defenda e nos explique ou melhor ainda um clube tipo rotary dos que aprenderam em bi mas têm de ser uno. I ainda um pai que mesmo depois dos thirtys nos coloca em sentido linguístico. Por outro lado, é só vantagens somos naturalmente encaixados em ambos os mundos o latino e o anglo-saxónico onde somos vistos ou ouvidos sem desconfiança verbal. Gozamos da pertença e mostram-nos caminhos ou segredos que de outra forma não seria possível. Depois ainda temos as variações, desvios da língua no próprio português, onde são paridos novos significados e atribuídas novas formas. Ontem ouvi uma que me deliciou "vamos bacalhar" que me pareceu a junção do verbo cozinhar com a palavra bacalhau. Encurtou o caminho, tão próprio dos dialectos africanos. Uma mesma palavra as vezes pode ser uma frase inteira em português. Deve ser o resultado dos milhares de milhas percorríveis em áfrica. A grande confusão foi a percepção do género, meu deus que graça desgraçada. O ser feminino ou masculino adquiriu novíssimos contronos quando fui confrontada com o copo ser masculino e a doença feminina. Coincidiu com o crescimento hormonal, poupo-vos de detalhes dado que nada mais podia ser um simples IT ou coisa. Este é claramente um resultado de ter olhado para as voltas que a máquina de lavar a roupa dá e como corpos inanimados se comportam perante o que se lhes impõe.
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sábado, dezembro 11, 2004
Natal Maputo, Natal Lisboa.
São profundamente diferentes, em tudo. Começo pelo de Lisboa que é o que me faz lembrar frio, pólo norte, pai natal, veados, gnomos little gnomos e bacalhau com fartura e o azeite também. As castanhas assadas preciosamente comidas como se de pássaro se tratassem os humanos, os cachecóis, pontas do nariz congeladas como o frigorífico da Madalena, as luzes nas ruas, frio e centro comerciais repletos de consumismo, a família que finalmente se junta. Dias que me agradavam pelo que puxava em mim, apetecia-me dar tudo ao mundo. O Natal aqui é praia, praia e muita praia. Mas ao longo destes 10 anos que aqui voltei que vamos vendo melhorias e desenvolvimento social neste campo, luzes da EDM na Eduardo Mondlane, as lojas em vez de grades já tem Pai Natal desenhado com aquele spray neve, o calor sente-se na espinha, no cabelo, na pele. A cidade vao "amouchando" o ritmo não muito rápido do ano que nos irá sair dos ombros, os vizinhos sul africanos a arregaçar as mangas com os dólares que lhe damos. Mas abriu há três dias atrás o GAME em Maputo a caminho da Costa do Sol e para quem conhece, sabe que esses dólares irão agora ficar por aqui mesmo. Mas Natal é Natal e para quem acredita nesta época sabe como é bom ver míudos à volta da árvore, excitadíssimos por saber que irão receber uma visita dum homem barbudo e vestido de vermelho. Adoro esta criança que vive dentro de mim e espero viverá sempre. Como também adoro andar de calções, t-shirt e uns chinelos pelos dias fora no Natal.
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sábado, dezembro 11, 2004
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Épa. As vacas da Swazi.
Não que me tenha esquecido, mas porque queria falar específicamente sobre as vacas da Swazilândia. Porquê? Tentem imaginar as vacas, das mais variadíssimas espécies totalmente espalhadas, pela estrada. Quando regressavamos a Maputo fiquei sinceramente espantada e surpreendida (algo que vai escasseando talvez com a idade) por ver vacas numa rotunda com cerca de 5 ou 6 saídas possíveis a pastar! É que não é normal. Todo o caminho para lá e para cá, fomos vendo montões de vacas, isto deve ser a primevera sei lá, a pastarem, a socializarem, a dormir, a esfregar aqueles focinhos que só os canelos são mais doces, umas nas outras e alguns touros pelo meio sempre, sempre à beira da estrada, na estrada a atravessar a estrada. Cresci com o hábito de ver animais por perto, mas vacas e muitas ao longo da estrada. Tentem lá entender que a Swazi é característicamente um país verde, de montanhas e pradarias mas o raio das vacas vão é pastar na berma. Digam-me lá se não é esquisito, mas acima de tudo perigoso. Não sei porquê, nunca tive muita vontade de perguntar a um swazi porque razão pastam as vacas na estrada mas que é uma realidade, é. Então fui o caminho todo a chatear-me com as vacas, com os swazis e o limite de velocidade que é muito baixo. Tenho que tentar ver se o código de estrada da Swazi contempla tamanha característica. Mas sei que a Swazi é um grande matadouro talvez sendo essa a explicação para as tantas vacas, mas nunca para o facto de andarem soltas a pastar na estrada. No entanto animou porque durante o caminho para lá, atravessou uma tartaruga e nós parámos a nossa caravana (éramos 4, viemos 3 um avariou só para o registo um mercedes), para que ela pudesse atravessar a estrada. Arrepiei ante o cenário de que o carro em sentido contrário nem sequer a visse.
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sábado, dezembro 11, 2004
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