sexta-feira, outubro 29, 2004

Verbo inspirado.

Hoje foi dia do verbo. Nem sempre me encontro assim.
Mas África inspira-me, inspira-me tanto que optei por viver nela, mesmo que o custo seja extremamente elevado, duro e difícil. De todos os países por onde passei, vivi e estudei, este o Moçambique é o que me dá de retorno à alma. Mesmo que o atraso económico seja grande (penso nos milhões de pessoas que não têm um litro de leite por semana), mesmo que eu não tenha na esquina a seguir a livraria cheia de cultura diversificada, mesmo que o peso da história não esteja no abrir da janela como na mouraria, mesmo que o calor me frite a mioleira, mesmo que sofra de racismo, e viva num ambiente de grande machismo, mesmo que eu não tenha sequer a coragem de pisar o hospital, como fiz no outro dia e ía desmaiando do horror que vi da condição humana, mesmo que os indícios macro e micro económicos me envelheçam precocemente (alías já o fez), mesmo que eu não possa votar e tiver que ter um dire (documento de residência para estrangeiros) que tenha de ser renovado todos os anos, mesmo ao fim de 10 anos a viver cá, mesmo que e tristemente o HIV esteja a ceifar pior que a dama negra, mesmo que eu leve 4 horas para percorrer 120 kms para chegar a uma praia.
Aqui tenho o muito que é preciso fazer ainda. Aí está tudo feito. Ontem falava com um psiquiatra moçambicano, formado no brasil e cuja alma por lá ficou, e quando demos por nós, a conversa não tinha fim, os temas são ilimitados, o universo do "que é preciso ainda fazer" é vastíssimo e tivemos que marcar um encontro, mais que não seja para definir onde e como podemos dar, prestar o nosso contributo.
Com toda a certeza é porque é sexta-feira amanhã é dia de descanso e mais um aniversário.
Um dia destes dá-me para a poesia.

A TAP e a LAM.

Para quem lê a imprensa local, viu um excelente desabafo de um português sobre o mau serviço que a TAP prestou quando assinou o acordo com a LAM para se fazer transportar os passageiros para portugal. Digo excelente porque e tenho de o dizer, por vezes temos uns "vasquinhos" (aquele que fala a mesma língua que eu, transporta o mesmo passaporte que eu e que ainda pensa que vem descobrir áfrica), que só estragam o relacionamento, só comprometem o fluir per si difícil neste equilíbrio que se pretende encontrar, não dignificam nada, mesmo nada aquela que é a raça portuguesa. A minha.
Mas os portugueses não são originais nem inéditos neste tratamento, por cá temos exemplos de todo o lado quando verificamos o tratamento que é dado, ou a preferência inexistente que é permitida. Quando exerci a actividade de trading, importação / exportação, ficou bem claro que o material ou a matéria prima que vinha para aqui, até podia vir cheia de salmonela, como foi o caso duma encomenda que fiz de farinha de peixe. Tiveram azar porque mandei tudo para trás e ainda cobrei o seguro. Mas fui parar ao hospital com salmonelas, isto no dia 31 de Dezembro, para não me armar em esperta.
Faço um alerta a todos os portugueses que queiram estabelecer negócio ou pontes seja do que for, tenham e mostrem o respeito, que é exigido em portugal a todas as entidades e pessoas estrangeiras. Não somos melhores do que ninguém. O cordão umbilical pode estar lá, mas não se enganem é só isso que está, mais nada. Moçambique tem uma identidade própria, um caminho próprio a percorrer, uma vontade política própria e necessidades próprias e que na grande maioria das vezes nada tem a haver com a dos portugueses. A linguagem do mercado é comum ao global, mas não se confunda economia com cultura.
Haja respeito!

"Boxeur" Sarmento

Cá está ele, para palestrar sobre a comunicação social no ISPU (Inst.Superior Politécnico e Universitário), com certeza para trespassar a recente ideia de que o sector público não pode ter uma independência total. Não demorou muito a cá chegar, mesmo quando temos 11 mil kilómetros a separar as políticas. Quando aqui esteve o Jonathan Moyo do Zimbabwe, levou uns "murros" meio tristes dos jornalistas moçambicanos, vamos ver se as técnicas de defesa deste ministro polémico sejam bastantes para não levar em "KO" de Moçambique.

VIII CASP.

Não, não é caspa, mas é uma boa forma de lembrar.
A oitava conferência do sector privado realizada passados 3 dias, no centro de conferências Joaquim Chissano. Monumento edificado por chineses. Em 1994 voltei eu para Moçambiquem vinda de Lisboa e um ano depois o sector privado começa a organizar-se. Participei em todas menos as últimas duas. Esta decidi voltar, por fazer parte do sector privado "penalizado", dois temos um presidente cessante e eleições à porta. Foram 3 dias recheados de supresas, nomeadamente pela sua organização que a meu ver está sinceramente melhorada, pela adesão do próprio sector cerca de 700 pessoas, pelas actividades. Painéis de um nível a que não estava habituada e por lá passaram palestrantes que começaram na Primeira Ministra Luisa Diogo e acabaram no Channing Arndt da Purdue University.
O sector privado colocou os doadores na boca do lobo, o governo a prestar contas e ofereceu a primeira formiga, a Joaquim Chissano, o símbolo que irá agora representará a CASP através do seu prémio anual. A solidariedade foi o tema da formiga e da conferência: melhores empresas, mais empresas.
Do negativo, podemos dizer que estamos a levar muito tempo para ver mudanças significativas por parte do governo, sabiamente defendido pelo presidente cessante Joaquim Chissano, através do caminho que tem de se percorrer para se chegar a uma solução eficaz, talvez o desespero que não foi suficientemente "descarregado" nestes 3 dias e ainda a falta de maturidade por parte do factor humano. A ameaça por parte dos doadores, caindo infelizmente em
contradições defensivas, dado que o interesse na mudança da política existe justificando assim a entrada para o governo das doações.
Do positivo, digamos que o BIM lançou a ideia de se criar um instituto tipo IAPMEI, para se apoiar as PME's (sinceramente só não sei se já estamos classificados...), a pressão foi feita para que as doacções sejam feitas ao sector privado também, com programas a serem criados, o interesse, a organização, a sensação de esperança que se vai mantendo. A abordagem feita pelo economista Roberto Tibana quanto à definição da política de doação por parte dos doadores, quiça não ser do interesse público ou do sector privado. Este começa a ter o seu peso, finalmente. A discussão está lá, mas ainda um caminho longo a percorrer.
Mesmo que uma grande parte já tenha transferido o seu investimento para Angola, que parece estar a andar um pouco mais depressa do que nós aqui em Moçambique.
O presidente Joaquim Chissano fez a sua última visita oficial nesta conferência e apesar de nos ter feito secar quase uma hora à espera, teve o seu tempo de despedida que será sempre saudosa pela sua diplomacia, humor inteligente e com certeza o algo que não fez e devia ter feito.
Tenho de confessar que já estive mais vezes com o presidente Joaquim Chissano do que alguma vez tive com o Jorge Sampaio. Este é um factor próprio de Moçambique, temos um acesso mais directo aos decision makers.
Para quem tiver interesse em ver os papers desta conferência, pode visitar o site da CTA: www.cta.org.mz

Joanesburgo contraditório.

Puxa que falta me fez esta esfera dos blogues.
Nós, aqui em Maputo temos um hábito engraçado. Viajamos 1200Kms num fim de semana, para arejar, descansar, lavar a vista dos produto novos e que por estas bandas ainda não chegam com a mesma celeridade duma europa, fazer kilómetros por alguma razão desconhecida, ir ao cinema, ver alguma família que por lá viva (é que não vivem só madeirenses e açorianos em JHB), comprar livros e...voltar. Passado o fim de semana de uma intensa movimentação que não nos caracteriza nada, já vos falo da conferência do sector privado, estes últimos 3 dias, voltamos sempre com uma sensação de estar a voltar duma cidade tipo nova york, com sede de sangue porque é insegura mas que nos maravilham alguns pontos: as casas de banho da áfrica do sul, na sua maioria são imaculadamente limpas, bem cheirosas, lavadas; os jardins e espaços verdes são zonas onde aquela gente gasta dinheiro e tempo, as autoestradas totalmente filmadas diáriamente são enormes (só em Miami é que vi estradas maiores que as da áfrica do sul, sempre com um mínino de 6 faixas para cada lado, 12 no total!), o champanhe com laranja para o pequeno almoço, ou matabicho como aqui dizemos e a total falta de cultura latina que se vive. Ás 9 da noite numa cidade pequena como a de Nelspruit a 200kms de Maputo, não se vê alma na estrada, na rua, nos restaurantes. Aliás, os sulafricanos jantam às 6 da tarde e os miudos até vão de pijama para os restaurantes e assim quando a casa chegam é só meter na cama. Fascina a edução disciplinada que as mães sulafricanas dão às suas crias.
Joanesburgo, é uma cidade bonita, com um charme anglo-saxónico e hoje já não existe estabelecimento que não tenha o café expresso, a bica, dada a enorme comunidade de italianos e portugueses que or lá vive. Quando chego duma viagem Maputo-Joanesburgo, aterro sempre num pequeno café exterior com a marca EUROPA, pelo seu expresso e facilidade de estacionamento, que é perto do parking para tomar o café e deliro sempre, sempre com a mistura humana que por lá vejo e que em Maputo apesar de ser cosmopolita, ainda não se vê por exemplo a homosexualidade activa e assumida. Em JHB é o extremo oposto. A moda, os carros, meu deus os carros tiram-nos sempre do sério, nunca passo um fim de semana sem ver pelo menos um maserati, porches muitos, jaguares, ferraris ou o clássico lamborgini. A zona onde ficamos chama-se Sandton, zona Norte de JHB para onde as massas que vivia no centro de JHB migrou toda, hoje e para quem já lá viveu, nem entro pela insegurança.
É uma cidade sem mar, sem rio e com lagos artificiais criados para que o ser humano não se sinta tão mal e com falta de iodo! À entrada passamos por minas que já nada se extrai e viraram montes/cabeços com alguma relva. É totalmente desprovido de nutrientes, nada cresce lá, mais parecendo um cemitério de minério. É uma cidade imensa a 5 mil pés de altitude e que nos faz sempre ter sono, dor de cabeça e sangramento do nariz, é que nós vivemos à beira-mar...ou seja tem a mesma altitude da Serra da Estrela. Menos ar, muita luminosidade a o apressar próprio da cidade grande. Maior que Lisboa para dar uma ideia.
Mas JHB tem um encanto próprio, pela sua história, pela sua agressividade. Nós aqui em Maputo pelo menos uma vez por mês lá vamos picar o ponto e voltar com a sensação que é bom viver numa cidade pequena como Maputo.